Quem me conhece sabe que não partilho o meu copo com ninguém e em jantares de grupo começo logo por anunciar que não há cá double dipping. Ninguém vai ao molho de todos com uma batata já mordida ou um garfo já usado. Sim, sou o chamado nojentinho. Agora imaginem o meu estado de paranóia quando se começou a falar coronavírus. Tudo me deixava desconfortável. Almoçar no refeitório da rádio, estar sentado ao lado dos meus colegas, tudo me fazia soar a música do Twilight Zone na cabeça e me começava a gerar ansiedade.

Antes até da rádio nos mandar para casa e se falar nisso a nível geral no país, eu pedi autorização ao meu diretor na RFM para tirar férias e ficar recolhido, ainda que fizesse questão de estar a trabalhar a partir de casa. Eu só não queria estar ali. Sentia-me entre o rato que é o primeiro a abandonar o navio e o civil responsável que sentia que podia estar em casa a fazer o mesmo que faria na rádio. Antecipei-me ao que felizmente acabou por vir a acontecer. E ainda bem que aconteceu.

Há muita gente que não tem essa sorte mas felizmente, a maior parte do trabalho em rádio pode ser feito a partir de casa e rapidamente, o meio que mais se soube adaptar a todas as mudanças tecnológicas e sociais ao longo de décadas, mostrou mais uma vez a sua versatilidade. A rádio é um polvo, a rádio é um camaleão, a rádio é uma Osga-satânica-cauda-de-folha (boa oportunidade para ir ao google conhecer este maravilhoso espécimen).

É claro que a internet ajuda no processo de adaptação e a predisposição humana para enfrentar novos desafios também. Assim, a partir de casa, a rádio continua a fazer parte da vida dos portugueses. Muitos deles, os heróis que têm de sair à rua para ir trabalhar. Heróis a sério. Sugiro até que as câmaras municipais a nível nacional instalem sistemas de som que estivessem sempre a tocar a música do Super-Homem para todos aqueles que têm de sair de casa para ir trabalhar, tivessem banda sonora a altura. Não merecem menos. Ou era essa música ou era a RFM, óbvio.

Quando falo da predisposição humana para se ajustar à mudança, nem falo só dos profissionais de rádio, falo também, por exemplo, da minha família incrível que colabora com um sagrado silêncio sempre que estou a fazer o programa ou sempre que estou a gravar alguma paródia em vídeo para as redes sociais. É daquelas alturas que dava mesmo jeito que os meus dois miúdos pequenos tivessem um botão de mute. São momentos da vida deles em que não podem estar aos berros e a provocarem-se um ao outro. Complicadíssimo.

Apesar do momento asfixiante e angustiante que vivemos, ao nível da rádio, há um entusiasmo que nos transporta para a adrenalina e a magia dos tempos das rádios pirata (embora eu me tente convencer a mim próprio que sou demasiado novo para saber o que isso era.). Sinto nos meus colegas uma entre-ajuda e um espírito de camaradagem que sabia que existiam mas que agora e mais do que nunca vêm ao de cima. Estou orgulhoso da rádio e dos meus colegas e acredito que em todos os sectores da sociedade se estejam a viver momentos de união como nunca os vivemos antes. Também por isso acredito que vamos ficar bem.