Sou o João Catalão, de 34 anos, natural de Lisboa, osteopata de profissão há 10 anos e meio e praticante de atletismo amador há 7 anos e meio. Desde a minha concepção até meados de 2012, sempre me conheci com formas redondas, com um sentido de humor apurado e com um apetite louco por comida. Não tinha regras no que toca a exercício físico (apenas cumpria aquilo que me era exigido em Ed.Física) e a alimentação (quanto mais melhor… sobretudo à noite, depois de horas sem comer!). Até que um certo dia em que, estava eu sentado no sofá a ver TV depois de jantar, os botões da camisa branca justa que tinha vestida decidiram fazer soar o alarme na minha cabeça, da mesma maneira que um relógio de cuco avisa que chegámos a uma determinada hora.

Foi aquele o momento da reviravolta… O chamado clique! Repentinamente o meu pensamento foi tomado de assalto por vontades nunca antes vividas: queria que chegasse o dia seguinte para me inscrever no ginásio, queria mudar certos comportamentos relativos à nutrição, queria transformar-me. E assim foi. O João sedentário deu lugar ao João determinado e focado em fazer tudo o que estivesse ao seu alcance para alterar um rumo que percorria, desde sempre, dentro de uma bolha. No ginásio, as aulas de grupo de alta intensidade, a passadeira e elíptica, os treinos de força e mais tarde as corridas na rua, foram os ingredientes essenciais para que no espaço de um ano e meio viesse a perder 23kg. Aprendendo a comer com consciência, várias vezes ao dia nas doses adequadas, e bebendo água com frequência, o resultado tornou-se ainda melhor consolidado.

Para bem da minha saúde, modifiquei a maneira de pensar e isso refletiu-se automaticamente num estilo de vida que se tornou prioritário. Durante todo este percurso até hoje, por saber a ativação mental que a libertação de endorfinas na corrente sanguínea me trás, não consigo conceber um dia que não se inicie com atividade física. É sobretudo na corrida na rua que vou buscar esse prazer. O facto de poder praticar desporto em contacto com a natureza, de uma forma livre e acessível, torna o processo atrativo. Foi assim que ao longo dos últimos 7 anos tenho vindo a evoluir, progressivamente, nas várias distâncias de corrida: 10, 21 e 42km. Conto com aproximadamente 20 meias maratonas realizadas e 9 maratonas, quer a nível nacional e internacional, tendo como melhor registo 1h15 aos 21km e 2h43 aos 42km. Estes resultados surgem fruto de uma dedicação contínua, de ter uma consciência das necessidades ao nível da recuperação física e da nutrição, de ter falhado em situações anteriores e com isso ter a noção certa de que treinos me beneficiam.

Tudo isto só é possível devido a uma enorme força de vontade, pois não é fácil treinar todos os dias de manhã cedo faça chuva, frio ou vento. Definir um objetivo torna-me mais organizado e isso facilita o compromisso com a corrida. Gosto de programar 2 maratonas por ano, o que faz com que 3 a 4 meses antes da prova inicie uma preparação específica com volumes semanais a rondar os 100km, com treinos de força e de bicicleta. Era isso que estava a acontecer até há aproxidamente 3 semanas quando a pandemia do Covid-19 se instalou no mundo. Tinha como prova-alvo a maratona de Londres que iria realizar-se no dia 26 de abril mas que entretanto foi adiada para 4 de outubro. Não me custou aceitar a decisão pois, independentemente do esforço a que me submeti para atingir a condição física que tinha, valores mais altos se levantaram e tudo o resto passou para segundo plano.

Até há poucos dias continuei a correr, sozinho, e sobretudo em horas de menor circulação de pessoas, procurando locais menos expostos. Ao mesmo tempo, abdiquei de continuar a exercer a minha profissão de osteopata para minha segurança e para segurança dos meus utentes. De momento encontro-me em casa, na companhia da minha cadela, e procuro fazer várias atividades durante o dia entre ver filmes, cozinhar, conversar com família e amigos e claro, treinar. Chego a fazer duas sessões por dia, uma mais cardiovascular ou de mobilidade e outra de força. Há um ano e meio adquiri algum material de ginásio para utilizar nas férias, que agora veio a revelar-se muito útil. É a alternativa possível para me manter ativo que em nada substitui o bem estar que encontro na corrida. Sempre fui uma pessoa otimista, calma e paciente e nem o facto do cenário atual não ter fim à vista me faz perder a estabilidade. Sinto que estas características foram lapidadas a partir do momento em que me tornei maratonista. Para se ser bem sucedido numa corrida de 42,195km, o equilíbrio emocional, a gestão de energia e de expetativas são fundamentais. São estes princípios que estou a aplicar nos dias que correm e que me permitem continuar focado nas minhas rotinas, independentemente do rumo e do destino para o qual estamos todos a caminhar.

A época difícil que vivemos, privados de um contacto social aproximado, tem-me permitido refletir sobre aquilo que é realmente essencial nas nossas vidas e faz-me questionar como serão as relações humanas quando tudo passar. As redes sociais têm servido positivamente para nos mantermos ocupados e contactáveis e com isso minimizar os danos afectivos. As pessoas parecem estar mais ligadas umas às outras, fazendo declarações de saudade e de amor de parte a parte, mas até que ponto é que isso se irá materializar depois? Será que um abraço ou um beijo serão dados com o mesmo à-vontade de anteriormente? Penso muito nisso. E como seria se esta pandemia tivesse surgido há 30 anos? Não dá para imaginar…! Resta-nos seguir as recomendações da OMS e das entidades que tutelam a saúde no nosso país e apelar ao bom senso de todos, ficando em casa por respeito aos que por nós, na linha da frente, com brio e com enorme sacrifício lutam para salvar pessoas e trabalham para que nada de essencial nos falte no nosso dia-a-dia. Que todos nós aprendamos a encontrar a felicidade nas mais pequenas coisas. Só assim iremos valorizar as grandes conquistas. Sejamos fé e esperança num futuro melhor.

Um abraço.

João Catalão