Muito mais do que uma peça de teatro, este “Todas as coisas maravilhosas” é uma viagem em grupo pela vida de um personagem incrivelmente humano e que tem muito mais de nós do que possa aparentar. Vemos e vivemos as suas experiências mais marcantes, participando activamente no contar da narrativa, sempre guiados pelo super talentoso Ivo Canelas – que tem nesta obra um desempenho que claramente marcará a sua carreira.

Depois de aconselhados até à exaustão por muita gente, nós, os três editores do Pela Fechadura, juntámo-nos e fomos mesmo dar uma oportunidade ao monólogo de que toda a gente fala. A expectativa estava muito alta e isso, por vezes, acaba por ser a razão para que saiamos desiludidos de uma sala de espectáculos. Mas não desta vez… desta vez foi perfeito.

Logo à chegada somos conquistados pelo facto de o próprio Ivo Canelas estar a distribuir, pelas pessoas que vão chegando, algo que fará com que participemos activamente na dinâmica da história. Pode ser uma palavra ou uma frase e tem sempre um número. Não nos vamos alongar porque perceber o impacto deste momento no decorrer da peça é parte do fascínio, mas garantimos apenas que em nenhum momento a participação é constrangedora nem desnecessária. Ah, e garantimos também que todas as dinâmicas são COVID-free!

Créditos: André Henriques/www.ahphoto.pt

Apesar de o formato ser, na nossa opinião, parte do sucesso, não é de todo o único factor que faz com que “Todas as coisas maravilhosas” esteja em exibição há vários meses e quase sempre com sala esgotada. Se tivéssemos de apontar o factor mais decisivo, diríamos certamente dois nomes: Ivo Canelas. A sua disponibilidade para o público desde o primeiro momento é emocionante (não nos esquecemos daquele primeiro olhar nos olhos de todos os membros da plateia antes de começar), aliada a uma capacidade arrebatadora de se posicionar num registo híbrido – muito pouco “personagem”- que faz até com que seja difícil aceitar que  história que nos conta durante quase duas horas na primeira pessoa, não é a dele próprio.

Nós acreditamos que a cultura pode mudar vidas. Que muda vidas! E este é um exemplo perfeito de um espectáculo que o faz num estalar de dedos. Toca nas nossas memórias mais escondidas – no nosso íntimo – e leva-nos numa viagem por momentos bons, maus e hilariantes. Traz-nos nostalgia, saudades, sorrisos e até euforia. Resumindo, é daqueles espectáculos que tem apenas um pequenino defeito: tem fim.

P.S.: Aproveitem as últimas datas em Lisboa, até 4 de novembro, ou vejam no Porto a partir do dia 7.