Há muito que esperávamos por este programa que apesar de não ter relação directa com o “Como é que o bicho mexe”, é dele que nasce. O “bicho” foi claramente o gatilho que levou a SIC a perceber que era urgente contratar Bruno Nogueira e entregar-lhe um caderno em branco, para que pudesse desenhar do zero o programa que o próprio quisesse fazer. Este “princípio, meio e fim” não foi a primeira ideia que surgiu mas por força da pandemia e das restrições acabou por ser a escolhida. E o primeiro episódio deixa água na boca!

Este primeiro episódio começou perto da meia-noite, já depois do prometido directo do “Bicho” no Instagram, em que os autores e actores fizeram uma antevisão à estreia televisiva. O primeiro frame que vemos é com Bruno Nogueira e com uma frase especial que dá o mote a tudo o que vamos ver: “Acreditem no que vos digo, há beleza no erro”. De seguida surge a explicação da estrutura do conceito, começando pela descrição das personagens:

Paulo (Albano Jerónimo) – É o anfitrião e é intenso, confiante, bom amigo e cozinha bem;
Stone (Nuno Lopes) – É um espírito livre e descomplexado que vive em harmonia com o mundo e não conhece o conceito de “espaço pessoal”;
Maria João (Rita Cabaço) – Tem um feitio muito particular: é querida, doce e sensível até começar a beber. A partir daí fica temperamental, bruta e sem paciência;
Luis Henrique (Bruno Nogueira) – Não tem carisma nem tem graça mas esforça-se muito. Quando abre a boca cria um vácuo na sala;
Francisca (Jéssica Athayde) – É um compêndio de justiça social mas a maior parte das vezes não está certa.

Todos estas personagem têm esta identidade própria, mas na verdade são, como em nenhum outro programa, figuras com destino completamente entregue aos argumentistas – são eles que vão decidir, sem os consultar minimamente, o que vão fazer em cada programa. E o que acabarem por escrever, mesmo que tenha erros, é o que vai ser interpretado pelos actores!

O FASCÍNIO DA CRIAÇÃO

As regras para os argumentistas Bruno Nogueira, Nuno Markl, Salvador Martinha e Filipe Melo são simples e claras: têm um quadro, um computador e duas horas para escrever o guião! Para além disto, a produção do programa ainda coloca no set em que tudo está a decorrer, e propositadamente, distracções para colocar à prova a concentração dos quatro.

Créditos: Vicente Calado

Depois das explicações, o programa inicia com os argumentistas num espaço amplo e apenas com o tal quadro e computador. Reparamos no detalhe, mais metáfora do que outra coisa, de estarem vestidos de fato-macaco, uma clara alusão ao processo criativo enquanto acto duro, muitas vezes angustiante, e desvalorizado – mas que na verdade tem enorme importância para que tudo possa simplesmente funcionar!

Nesse ambiente, e a partir do zero, cada um começa por lançar para cima da mesa as ideias que tem para que todos possam encontrar o fio condutor do guião. Nesta fase inicial percebemos as dificuldades do processo criativo e rimo-nos com o desnorte deles. Mas também aceitamos que este processo não é fácil, limpo nem sequer harmonioso no que toca às opiniões de todos os envolvidos.

Num primeiro momento pensámos que seria desmotivador conhecer a história antes de a ver ser representada, mas a verdade é que deu uma outra dimensão a tudo o que os actores fizeram de seguida! Um exercício de observação que de certa forma nos educa enquanto espectadores.

O TALENTO DA REPRESENTAÇÃO

Normalmente partimos do pressuposto de que actores incríveis como estes também funcionam porque têm enredos e textos do mesmo nível, certo? Hoje, neste primeiro episódio, e apesar da presença constante do erro, vemos de forma crua como em poucos outros momentos, a beleza do talento da representação. Por entre todos os erros e disfuncionalidades, lá estão eles a levar-nos para o universo das personagens.

Sem querer ser demasiado spoiler, queremos dizer que houve cenas que nos levaram às lágrimas no melhor sentido do termo! A do momento de incentivo efusivo dos amigos a Paulo (Albano Jerónimo) e o improviso de Stone (Nuno Lopes) que gera uma conversa com Luis Enrique (Bruno Nogueira) e nos transporta directamente para o que é o “Bicho”.

Neste episódio o destaque esteve claramente mais em cima de Paulo (Albano Jerónimo), mas no próximo só saberemos quando virmos. É também a beleza deste formato que, pelo que vimos hoje, tem tudo para encantar tanto os muito fiéis fãs do “bicho” como outros espectadores que gostem de ver rasgo criativo e inovação. A esse nível, certamente não haverá melhor programa que este na televisão portuguesa em 2021.