Sentámo-nos na sala, muitos meses depois da última vez, e levávamos por isso mais saudades de toda a mística de ver um filme no cinema do que propriamente expectativa em relação ao filme em si. Aliás, até estávamos meio desconfiados por todo o hype das últimas semanas em torno da prestação de Carey Mulligan, nomeada para o Oscar de Melhor Actriz Principal. Resumindo, esperávamos um bom filme e queríamos mesmo perceber se todos os elogios à actriz eram apropriados ou se era o tema do filme a proporcioná-los.

A VINGANÇA AO LIMITE

Não há como escrever sobre o filme e sobre a prestação da protagonista sem abordar o tema central do filme: o assédio/abuso de mulheres em momentos de vulnerabilidade. Parece-nos que pode mesmo dizer-se que é um tema muito relacionado a movimentos recentes como o “Me too”, e outros do tipo.

Neste Promising Young Woman, Cassandra (Carey Mulligan) é uma jovem adulta traumatizada com algo que aconteceu no seu passado e que procura, no presente, impedir que o mesmo aconteça a outras pessoas e que a certo ponto decide levar a missão a outro nível, e começa a tentar vingar-se de todos aqueles que a traumatizaram.

MUITO BOAS SURPRESAS

Apesar de a narrativa ser, de facto, interessante, aquilo de que mais gostámos foi da fotografia e filmagem. Há três ou quatro cenas que valem o bilhete pela forma como foram pensadas e realizadas – normalmente sempre na exploração do movimento (quer das personagens quer da câmara). Não queremos deixar spoilers, mas fixem que as que mais gostámos foram a da farmácia e a do carro no meio da estrada!

Quanto a Carey Mulligan… ficámos sem palavras. Tem neste filme a sua melhor interpretação da carreira, sem margem para dúvidas. A forma como nos mostra todos os seus recursos enquanto atriz num só filme é arrebatadora – passa por todos os estados emocionais e de forma convincente: consegue estar feliz; fingir estar feliz; estar triste; fingir estar triste; passa pela paixão, pela raiva e pela loucura.

Sem querer comparar o incomparável, há momentos de alguma loucura em que vemos uns traços de Joker… totalmente adequados! Não fosse a performance de outro mundo de Frances McDormand em Nomadland e o Oscar seria, muito provavelmente, dela.

Por fim, outro dos pontos fortes do filme: a banda sonora. Já há muito que não víamos um filme para as massas com uma banda sonora tão bem adaptada à história e que fala por sí só. Stars Are Blind (Paris Hilton), Toxic (Britney Spears) e o clássico It’s Raining Men são algumas das músicas – adaptadas – que surgem no filme e lhe conferem uma vida distinta.

O filme está nos cinemas desde quinta-feira e, vão por nós, é daqueles a não perder.