A CAMINHO DOS ÓSCARES: “GREEN BOOK”

Green Book surpreendeu tudo e todos e conseguiu o seu lugar de destaque como um dos filmes do ano. Baseado numa história real, mostra-nos parte do caminho que já fizemos e, simultaneamente, relembra-nos do que ainda há por fazer. Eu vi-o há poucos dias e nem precisei de apontamentos para escrever este artigo sobre ele 🙂

Antes de mais nada faço um disclaimer: à partida qualquer tipo de filme ou série de época – ou que retrate simplesmente um período do passado – é menos apelativo para mim. Gosto mais de historiais actuais, com referências do momento em que as estamos a viver intensamente. No entanto a história deste “Green Book” cativou-me com muita facilidade. Remonta a 1962 e centra-se em Don Shirley – Mahershala Ali -, talentoso músico da época, e Tony Lip – interpretado por Viggo Mortensen – um ítalo-americano que trabalhava como “segurança” (para ser simpático… 😉 ) numa discoteca e acaba por aceitar o trabalho como motorista do músico. Até aqui tudo parece banal, certo? Já vão ver que não é!

A particularidade que fez toda a diferença, quer na história real quer nesta adaptação para cinema, foi o tom de pele de Don Shirley. Filho de pais imigrantes da Jamaica, desafiou todos os padrões ao ser um pianista muito talentoso e…negro. Sem querer desvendar demasiado, conto-vos que estes dois personagens se juntam pela necessidade. Um, Tony Lip, porque precisava urgentemente de trabalho para cobrir as despesas da família e outro, Don Shirley, porque precisava de alguém forte e destemido que o acompanhasse na sua tour pelo sul do país – uma das zonas dos Estados Unidos da América em que a tolerância para com os negros era menor.

O filme está muitíssimo bem conseguido. A história, para além de muito relevante, é extremamente bem contada. Sobretudo através do trabalho de construção das duas personagens que se alimentam mutuamente. Pela forma como estão trabalhadas, são a metáfora perfeita entre “o que devemos ser” e o que “precisamos de ser”. Duas personagens que personificam dois estilos de vida completamente diferentes, duas formas de falar e agir. E no entanto… que se complementam. Ao longo do filme ensinam-nos, através de diálogos muito ricos – numa zona muito bem explorada entre o drama e o humor – muito sobre persistência e cedência. São, mais do que qualquer outro artifício, estes diálogos que nos guiam durante todo o filme.

Apesar de se apresentarem ambos a um nível muito bom, Viggo Mortensen está sublime. A transformação física para interpretar Tony Lip impressiona mas não se fica por aí. Vejam com atenção a forma como come o frango frito. Priceless! 😉

É muuuuuito provável que este filme ganhe Óscares. Sim, no plural. As nomeações são nobres: Melhor Filme, Melhor Actor Principal (Viggo Mortensen), Melhor Actor Secundário (Mahershala Ali), Melhor Edição e Melhor Guião Original. Mais um a não perder!

JM