A CAMINHO DOS ÓSCARES: “ROMA”

“Roma” tem sido um dos filmes mais falados nas últimas semanas – tendo mesmo arrecadado já vários prémios importantes. A crítica de cinema é praticamente unânime: trata-se de um filme de autor excepcional. Mas será que se justifica este rótulo?

Tratando-se de um filme de autor, faz sentido começar precisamente por aí. Alfonso Cuarón, realizador mexicano de 57 anos, foi quem escreveu e realizou – a título de homenagem à sua infância, com especial enfoque na família e, sobretudo, na empregada que cuidava de si e dos seus irmãos. É, por isso, o seu filme mais pessoal. Depois de ter sido responsável pelo sucesso de “Gravity” – cujas personagens centrais são interpretadas por George Clooney e Sandra Bullock – este é claramente o filme pelo qual pretende ser reconhecido. Se quisermos: a sua obra-prima.

Confesso que decidi ver o filme e escrever sobre ele pela muita curiosidade acumulada. Afinal que filme é este de que toda a gente fala? E porquê falam?

“Roma” é mesmo um filme diferente. E fica o alerta: não é para qualquer pessoa. Para resumir, são estas as principais diferenças deste filme:

Preto e branco

Este tipo de filmagem não é, hoje em dia, minimamente usual. No entanto é fundamental para que o autor nos consiga levar até àqueles tempos – e com a carga dramática que pretende. Desliga-nos dos detalhes acessórios para nos fazer valorizar todo o conteúdo.

Hollywood vs Autor

Contrariamente aos filmes tipicamente produzidos em Hollywood, que normalmente nos fazem viajar por um enredo relativamente semelhante em que apenas a história e as personagens vão sendo alteradas, “Roma” tem uma lógica diferente. Sobretudo no que toca ao tempo: é um filme lento, detalhista e em que somos convidados a contemplar. As emoções fortes também estão lá, sobretudo na segunda hora do filme, mas são vividas de outra forma. Parece tudo mais natural 🙂

Elenco sem estrelas

O que à primeira vista pode parecer pouco apetecível – um elenco sem estrelas mundialmente conhecidas e galardoadas – depois torna-se fundamental. Esta história é tão pessoal que tem de ser contada por actores que nos façam pensar nos nossos familiares e amigos. Pessoas “comuns” das quais não tenhamos grandes referências. O caso da personagem central, “Cleo”, é gritante. Segundo o próprio realizador, só encontrou a actriz certa um ano depois de abertos os castings…

Depois de ter visto o filme já duas vezes, consigo confirmar com toda a certeza que se trata de uma obra-prima. A sua fotografia e sonorização são sublimes – tanto que acredito que mesmo sem diálogos seria possível compreender a história que o autor nos quer contar. E depois tudo o resto – elenco, enredo, edição (…) – é muito acima da média. É um filme para ver sem pressa, sem confusão: tudo nele é para contemplar 🙂

Depois de dois globos de ouro – Melhor Realizador e Melhor Filme Estrangeiro – e muitas nomeações (para os prémios BAFTA e outros), é provável que Alfonso Cuarón consiga pelo menos uma das tão desejadas estatuetas douradas.

JM