FORD VS FERRARI: TINHA TUDO PARA SER O QUE NÃO É!

Este filme tinha tudo para ser o que não é. Podia ser um filme sobre carros e corridas e não é. Podia ser demasiado específico mas não é. Podia até ser demasiado histórico… mas nem isso é. Ford vs Ferrari ou Le Mans 66’ – O Duelo é um drama de acção que conta a história verídica por trás da criação do mítico Ford GT40 mas sobretudo a história de um sonho praticamente impossível de realizar.

Quando vi o trailer deste filme, há alguns meses, pensei que talvez fosse um daqueles filmes que acabo por ver quando não há outro em exibição que me entusiasma mais. Mas quando estreou acabei por ficar muito curioso para vê-lo: afinal de contas qualquer filme com Christian Bale vale a pena o bilhete. E por isso avancei! Esperava um filme histórico, meio parado e até demasiado específico ou técnico. Bastaram alguns minutos para perceber que a minha percepção estava totalmente errada. É um filme biográfico mas de acção!

Para os mais desatentos, Le Mans é o nome de um local em França mas mais do que isso é o nome de uma das mais míticas provas de automobilismo no mundo. As 24 horas de Le Mans são consideradas por muitos a prova mais prestigiada da modalidade e muito para além da velocidade tipicamente premeiam a resistência e a eficiência. Podemos assim perceber que ganhar esta prova é no mínimo muito difícil. Mas foi esse o propósito de Henry Ford (não o fundador da marca mas sim o seu neto) quando criou a sua própria equipa de corrida. Com Carroll Shelby aos comandos dessa mesma equipa o objectivo era claro: vencer Le Mans e bater assim a Ferrari. Até porque havia “contas a ajustar” com a marca italiana 🙂

Apesar desta história ser incontornável não é ela que faz do filme mais do que ele podia simplesmente ser. A começar pelo elenco, liderado por duas caras bem conhecidas – Matt Damon e Christian Bale. Tenho sempre uma espécie de preconceito com o primeiro: raramente me consigo desligar dele próprio e entrar na personagem que interpreta – muito provavelmente por já o ter visto em muitíssimos filmes mas nunca numa construção/transformação significativa nem num papel arrebatador. No entanto neste filme sinto que há momentos em que a personagem está lá, criada com os ingredientes certos. Já Christian Bale, enfim… começam a faltar-me palavras qualificar a capacidade camaleónica que tem de nos mostrar personagens tão diferentes – ainda “ontem” nos encantava ao interpretar um ex vice-presidente dos Estados Unidos (em Vice) e agora vejo-o enquanto um homem do povo, apaixonado por carros e com uma grande dose de inquietude e personalidade quase esquizofrénica. Volta a estar incrível no plano físico mas também na voz, outro dos seus pontos fortes – sem nunca voltar aos seus registos de outros filmes, consegue dar essa dimensão própria a cada personagem e neste filme isso acontece em grande escala. Um papel acima da média, mais uma vez!

Também a fotografia me encantou. E aqui confesso que a palavra que me vem à cabeça para descrevê-la talvez não seja a mais ortodoxa mas é a mais fiel ao que senti: é sexy! Sexy no sentido de remeter para muitas décadas atrás mas mesmo assim não ser aborrecido e de haver momentos em que há jogos sublimes de cores, contrastes e sombras – quase que me apetece dizer que a cinematografia tem um estilo “novo vintage”. É claramente um dos factores que faz com que este filme seja algo mais do que o expectável – há tanto para explorar em cada plano 🙂

É um filme longo (2h32m) mas que passa a correr e em que está sempre a acontecer alguma coisa. Não há grande espaço para contemplação, todo o tempo é dedicado às emoções que giram à volta das corridas e das vidas de quem as vive por dentro. É uma ode ao automobilismo e bem conseguida. É uma história verídica, espantosa e que deve ser contada a tanta gente quanto possível. E é sobretudo um filme para adicionarem à vossa lista. Gostem ou não de automobilismo, porque na verdade é um filme sobre sonhos e emoções. Como a vida…!

JM.