“JOKER” – OBRA-PRIMA OU DESILUSÃO?

Oito minutos de ovação em pé após a exibição e um Leão de ouro – foi isto que “Joker” conquistou no festival de cinema de Veneza. No IMDB a nota já vai em 9,2 com mais de 58 mil votações e as vendas nas bilheteiras estão a correr bem, como era esperado. Eu já o vi duas vezes e posso garantir que não deixará ninguém indiferente. Se procuram um filme de super-heróis, esqueçam. Mas se por outro lado querem conhecer o Joker por dentro e por fora… não podem perder.

Antes de mais… a expectativa estava muito alta. A de todos, no geral, e em particular a minha. Na primeira vez que entrei na sala para o ver, na ante-estreia, pensei: “vamos lá ver este filmaço”. E isso diz muito daquilo que eu queria que o filme fosse! Também quando o trailer foi lançado, há largos meses, fiquei verdadeiramente expectante e até publiquei aqui um texto sobre o quão interessante podia vir a ser este filme… e a interpretação de Joaquin Phoenix. Depois de já o ter visto integralmente duas vezes (e vou para a terceira daqui a alguns dias, claro!!) posso assegurar-vos que este, meus caros, é um FILMAÇO. Sim, com letra maiúscula. É um daqueles filmes em que parece que nos levam a cabeça e nos fazem passar por todas as emoções possíveis e imaginárias durante duas horas: rimos, temos medo, assustamo-nos, ficamos ansiosos, curiosos e choramos. No fundo é tudo aquilo que o cinema deve ser sempre.

Depois de o vermos como arqui-inimigo de Batman, o Joker finalmente mereceu um filme que se centra nele. Todd Phillips é o realizador (também escreveu) desta obra-prima e isso até é meio surpreendente se olharmos aos outros trabalhos dele: a saga “A Ressaca” é provavelmente o mais reconhecido. No “Joker” conseguiu mostrar rasgo e brilhantismo. É muito provavelmente um dos responsáveis por, como eu dizia ali em cima, nos levarem a cabeça para a montanha-russa de emoções. Tecnicamente ainda não consegui encontrar um defeito significativo, mas tenho obrigatoriamente que destacar a cinematografia, que é brilhante ao longo de toooodo o filme: a forma como trabalharam os tons quentes e frios é marcante e algumas sequências de filmagem (como a da tinta no cabelo ou a dança na escadaria) são sublimes ao ponto de me fazer mexer na cadeira de tão positivamente tocantes. Diria que a candidatura ao óscar está praticamente garantida e é justíssima.

Inquietante; Desconcertante; Frio; Quente; Agressivo; Humano. Tudo adjectivos que se aplicam ao camaleónico Joaquin Phoenix na pele de Joker. Ao ponto de nos fazer questionar se alguma vez na história do cinema houve outro actor a interpretar a personagem. Ahhh, e dou já o meu contributo para a discussão Joaquin Phoenix vs Heath Ledger: este último foi o melhor a fazer de Joker… mas Joaquin é o Joker. Ele criou-lhe uma dimensão física assinalável e que vai muito além da perda de peso e do cabelo mais comprido: está presente no rir, no andar, no correr, no olhar e desconfio que até no respirar. Mas não brilhou só fisicamente – é também o seu talento desmedido que faz com que tudo aquilo que o Joker é faça muito sentido. Até me apresentarem provas de que o Joker de Joaquin Phoenix não é real, eu recuso-me a acreditar! 🙂

Só vos posso pedir, para vosso bem, que vejam este filme. Percebam a humanidade de que é dotado e permitam-se a sentir tudo aquilo que houver para sentir. Porque “Joker” é um filme essencialmente baseado em sentimentos que passam por todos nós em algum momento da vida. Talvez tenhamos apenas a sorte de não passarem todos ao mesmo tempo.

Para terminar, uma passagem curta: “Espero que o momento da minha morte faça mais sentido do que toda a minha vida”

JM.