“MARRIAGE STORY” – SCARTLETT JOHANSSON COMO NUNCA!

Muito provavelmente é a melhor interpretação que já viram de Scarlett Johansson. Também muito provavelmente, se ainda não conheciam Adam Driver, vão ficar fãs. É esta a dupla que nos traz este “Marriage Story”, pela Netflix. À semelhança do que já fez com outros filmes recentemente (Irishman, por exemplo) a gigante plataforma de conteúdos americana trabalhou esta história à procura das nomeações para Óscar, que pode mesmo vir a disputar. E tudo graças ao…

… quão humano e relacionável este filme é. Comecemos pelo início, que foi logo marcante. Carrego no play do comando e oiço as primeiras palavras. Percebe-se que é alguém a falar com conhecimento de causa, que é um narrador presente na história. De seguida chega outra voz no mesmo registo. As palavras vão-se sucedendo e juntando-as o que sentimos é que estamos a ouvir uma declaração de amor, repleta de sentimentos positivos e absolutamente conscientes, como se o tempo passado juntos os tivesse feito descobrir tudo o que havia para descobrir no outro. Esta cena dura mais do que cinco minutos, o que no cinema blockbuster americano pode ser considerado uma eternidade. Mas eu estou a gostar de ouvir e a cada momento que passa vou pensando “o que será que vai acontecer a seguir, claramente vai acontecer alguma coisa marcante…”. E acontece, claro. Passamos desta música de embalar, repleta de palavras e outros sons, para um silêncio duro e uma realidade pior. E puf, em pouco mais de cinco minutos já estou completamente agarrado ao ecrã e mais nada à volta importa!

Este filme de Noah Baumbach é uma comédia, um drama, um romance. E é por conjugar estas três variáveis de forma tão natural e crua que é uma das mais belas metáforas da vida de um casal. Não me lembro, sinceramente, de ver algo assim em cinema. O argumento é de um nível muito acima da média e a forma como nos é entregado também é superlativa. Com muitas cenas longas, este filme marca-nos porque nos conta uma história que podia perfeitamente ser real, como é a nossa ou a daquele nosso familiar ou amigo que passou por algo semelhante. As cenas mais duras são longas e angustiantes e as mais felizes são poucas e rápidas. O texto é absurdamente relacionável em todos os momentos e isso é tão humano como difícil engolir, mesmo que estejamos, desta vez, do lado de fora da história.

Scarlett Johansson está como nunca vimos. Depois de muitos filmes de segundo plano e de, mais recentemente, se ter afirmado com uma passagem pelo encantador mundo da Marvel, muito provavelmente ao ver este filme estamos a ver “o” papel de Scarlett. Aquele primeiro pelo qual vai ser recordada daqui a 10 ou 20 anos. No papel de Nicole, a actriz prova que é capaz de nos guiar por uma variedade de estados emocionais verdadeiramente impressionante – ao ponto de haver cenas em que quase parece que a sinto a falar comigo. Mas seria injusto dizer que esta sua interpretação ofusca Adam Driver. No papel de Charlie, Adam traz-nos toda a densidade necessária e que nos faz perceber que nem toda a gente está preparada para viver numa montanha russa – é quase sempre muito sério e na maior parte do filme vêmo-lo também calmo, mas é nas grandes cenas dramáticas que revela a densidade daquilo que sente. Comparações à parte, sinto que os dois actores estiveram mais do que à altura do desafio. As principais cenas – vão perceber claramente quais são quando as virem – provam-no! ☺

Vi um filme tecnicamente seguro, em que estes factores suportam a estrutura e desenrolar da narrativa, mas com detalhes muito interessantes. A iluminação tem um papel importante a regular a intensidade dramática de algumas cenas e há planos absolutamente deliciosos, com destaque para o do portão a fechar e as várias simetrias que em algumas partes do filme nos fazem perceber que haverá sempre divisões… 🙂

Depois de no ano passado nos ter trazido Roma agora deu-nos Irishman e Marriage Story. A Netflix continua assim à procura da coroação enquanto uma das melhores produtoras e distribuidoras de cinema da actualidade. E quem sai a ganhar com isto… somos nós. Os amantes da sétima arte 😉

JM.