THE IRISHMAN: O NOVO FILME DE GANGSTERS

É um dos filmes mais falados do ano e há razões bem claras para isso. É dirigido pelo super talentoso Martin Scorsese e conta com um elenco de luxo encabeçado por Robert de Niro, Al Pacino e Joe Pesci. São 3 horas e meia de um verdadeiro filme de gangsters sobre as décadas de 50 e 60 mas no qual é utilizada tecnologia digital de ponta, que faz com que possamos ver Robert de Niro e companhia bem mais novos do que aquilo que são – e é por tudo isto que digo que é um filme diferenciado. Mas será que valeu a pena todo este esforço e investimento?

Estreou primeiro nos cinemas e agora, desde a passada quarta-feira, também está disponível na Netflix, que apoiou fortemente o projecto. The Irishman é um verdadeiro filme de gangsters mas com novos ingredientes. É divertido, humano e muito bem trabalhado do ponto de vista da narrativa que – embora muito longa (3 horas e meia) – é rica e permite tantas oscilações quantas necessárias para que percebamos tudo o que se passa em torno da vida dos personagens principais. Aliás essa é uma das principais marcas do cinema de Scorsese, no qual as personagens são o centro e a narrativa adapta-se para as servir. Nada do que é cinematografado neste filme está a mais porque tudo as suporta, mesmo que obrigue a que haja dezenas de micro histórias dentro da principal! E se por um lado um filme de gangsters costuma ser encarado como bastante sério… este rasga um pouco essa ideia: há momentos de ironia e até mesmo um certo humor (na maior parte das vezes sarcástico). Quando virem o filme lembrem-se deste texto quando aparecerem as primeiras “legendas” dos personagens que vão aparecendo – são o exemplo perfeito disto e provavelmente um dos pormenores mais deliciosos de todo o filme 😉

É impossível escrever sobre este filme sem mencionar uma das suas principais bandeiras: a tecnologia que permite tornar mais novos e depois até envelhecer os personagens. Vemo-los ainda relativamente novos, de pele limpa, e vamos acompanhando o seu envelhecimento ao longo dos anos até aos tempos de hoje. É incrível como a tecnologia digital permite este processo de “des-envelhecimento” e depois até de envelhecimento acelerado, que nos leva a crer que nunca saímos de dentro da história. Ao contrário do que já aconteceu noutros filmes, aqui estes efeitos artificiais parecem bem aplicados, não havendo grandes anomalias e sendo sempre fácil acreditar que estamos a viver cada momento como ele aconteceu realmente. Por mim a avaliação é positiva! E é bom ver realizadores de top a adoptar estas tecnologias, percebendo que o cinema deve continuar a inovar sempre!

Robert de Niro é o personagem principal e nem podia ser de outra forma: este Frank Sheeran parece ter sido construído 100% para si. É um homem introspectivo, calmo na aparência mas obstinado – sabe para onde quer ir e acaba por trilhar o caminho (difícil…) que escolheu. Também Al Pacino está de volta a estas andanças e não desilude ao interpretar um incrivelmente humano Jimmy Hoffa e por fim não posso deixar de mencionar Joe Pesci, que na verdade foi quem mais me surpreendeu pela positiva! Este interpreta Russell Bufalino e é um óptimo exemplo de uma contracena perfeita – a sua consistência é notável, em nenhum momento dá uma nota fora de tom, nem mesmo nos seus movimentos a ajeitar as calças. Robert De Niro ganha muito com ele e nós também. Diria que por isto mesmo Pesci será um forte candidato a nomeado para o Oscar de melhor actor secundário.

Resumindo, diria que é um excelente filme de Martin Scorsese que se apoiou num elenco verdadeiramente imbatível e de tecnologia de ponta para retratar o passado.

Vale a pena ver (não é para todos mas quem gostar mais gostar MUITO!) por tudo isto e também porque de repente, mesmo sentados no sofá, parece que vivemos décadas com os personagens. Estamos lá com eles em todos os momentos chave. Percebemos os caminhos que trilharam e porquê. E sentimos que sabemos para onde caminham…! A Netflix atirou-se de cabeça à procura dos óscares, e acredito que tenha hipóteses 🙂

JM.