“VARIAÇÕES” – SIM OU NÃO?

 

O Cinema português precisa de mais filmes como “Variações”. Se a história de um dos maiores autores da nossa música já indiciava, por si só, que este poderia ser um dos melhores filmes portugueses dos últimos anos… vê-lo confirma precisamente isso. Sobretudo por dois aspectos técnicos: fotografia/luz e som. Mas houve uma coisa que me surpreendeu ainda mais e me deixou impressionado!

Mais de mil avaliações e uma nota de 7,5 no IMDB deixavam antever que “Variações” é um filme no mínimo interessante. A juntar a esta avaliação que normalmente é encarada como padrão de qualidade surgiram as notícias de que o primeiro fim-de-semana nos cinemas tinha sido bastante bom, tendo mesmo superado os números de estreia de todos os outros filmes portugueses de 2019. Depois disto, se já tinha interesse em conhecer melhor a história de António Variações, mais interessado fiquei. E fui! 😉

“Variações” é um filme biográfico mas nem por isso nos aborrece na história da carreira musical de António. Mais do que descrever exaustivamente o seu percurso vai-nos mostrando, em longas sequências vividas em diferentes tempos (que em alguns momentos podem chegar a confundir ligeiramente quem vê), a sua essência, o que quis ser e como viveu. Numa determinada cena, sensivelmente a meio do filme, percebe-se que o objectivo dos autores é precisamente passar a mensagem de António Variações: “Quem disse que me quero adaptar?! É Lisboa que se vai adaptar a mim”.

Sérgio Praia é António Variações. E é mesmo!! Foram vários os momentos em que me senti a olhar para ele – sem me lembrar de tudo aquilo em que já vi o Sérgio. Percebe-se a seriedade com que encarou o papel e como o estudou meticulosamente: o andar, o olhar e o sotaque são exímios e transportam-nos. É uma interpretação muito generosa e que me remete, a espaços, para o que fez Rami Malek com Freddie Mercury – …e que lhe valeu um Oscar!

Também os actores secundários merecem o destaque, sobretudo Filipe Duarte e Victoria Guerra, que juntos interpretam um casal de grande importância na vida e carreira de António Variações e cuja sensibilidade chega a ser comovente.

(Fotografias: João Pina)

Tecnicamente é com toda a certeza um dos melhores filmes portugueses dos últimos anos. O som tem um papel central e está no ponto e a direcção de fotografia está muito acima da média para o que vemos produzido em Portugal – a “luz” de Lisboa está lá e a escuridão meio assustadora dos anos 80 também. Ao controlar muito bem estes dois factores que influenciam em muito o resultado final que vemos nos ecrãs… o realizador faz-nos voltar atrás no tempo. Estamos lá, naquela época, mesmo que nunca tenhamos efectivamente estado – como é o meu caso. A única coisa de que sinto falta é de um ritmo mais elevado em alguns momentos da narrativa que, tal como estão, são mais de contemplação do que entretenimento.

“Variações” é um bom filme. Daqueles que vale a pena ver e rever, como eu tanto gosto!! Vou fazê-lo e sinto que vou gostar ainda mais a cada uma das vezes que vir. Porque a história de António Variações é muito rica e para além disso… enche-me de orgulho ver como tem evoluído o cinema português 🙂

JM.